O Câncer e a Infertilidade

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Não é uma regra para todo tipo de câncer. Mas sim, em alguns tratamentos é possível que o (a) paciente venha a ficar infértil.

E aqui é preciso esclarecer um erro comum: a infertilidade não decorre da doença, mas sim da toxicidade do tratamento, sobretudo das quimios e radioterapias. Vejam o que dizem os especialistas:

“A quimioterapia e a radioterapia podem causar infertilidade porque ao mesmo tempo em destroem as células tumorais também podem atingir as células germinativas, as mesmas que dão origem aos óvulos e espermatozoides. Fatores como o tipo de câncer tratado, a idade do paciente, o potencial fértil da pessoa antes do tratamento e o tipo de quimioterapia e radioterapia utilizadas devem ser considerados no momento de avaliar quanto, exatamente, pode existir de impacto negativo no potencial reprodutivo.”

Muitas pessoas lidam com naturalidade com essa possibilidade, outras a consideram como um verdadeiro desastre para sua vida. Lembrando que é apenas uma possibilidade, pois em considerável percentual de casos, o tratamento não interfere na fertilidade do paciente.

Aqui vai um relato de um paciente que enfrentou (e venceu) o tratamento contra o câncer, mas que convive com esse efeito colateral. Sim, a toxidade da radioterapia de corpo inteiro (TBI) que antecedeu o transplante de medula óssea, no meu caso, levou à esterilidade definitiva, comprovada por espermograma, que acusou a presença de nada mais que NENHUM espermatozoide.

Na época, o diagnóstico da doença, que já ocupava 97% das minhas células, ainda veio com a muito bem vinda advertência do médico de que o tratamento poderia levar à esterilidade. Momento de agradecer ao Dr. Rodrigo, do Hospital das Clínicas de Goiânia, que ainda em 2011 alertou que deveria coletar e congelar espermatozoides caso pretendesse ter filhos no futuro.

Sabia decisão. Com a ajuda de pessoas muito especiais, fundamentais para garantir essa logística, congelei “os minino” e hoje ainda posso ser um potencial “papai”. Agora, a forma como se deu essa logística merece ser contada.

O contexto era horroroso: acabava de saber que estava doente e estava internado num quarto de hospital com 4 outros pacientes, cada qual com um acompanhante, o que representava 10 pessoas para um único banheiro.

Mesmo com uma veia pega no braço direito – justo nele, tive que me dirigir ao banheiro com um copinho de plástico, onde todos sabiam o que estava prestes a fazer. Alguns pacientes mais sacanas – tinham ótimo humor, tiravam sarro da situação, como o seu Adair, meu amigo que hoje brilha no céu.

A essa altura, um taxi esperava na porta do hospital para levar “os minino” pra Bariloche, ou para ser mais técnico, levar o sêmen para ser congelado em uma clínica especializada. Foi montada uma verdadeira operação de guerra, pois em no máximo 20 minutos após a coleta, os espermatozoides já deveriam estar congelados na clínica especializada.

Missão dada, missão cumprida. Mas não foi nada fácil, caros leitores. O diagnóstico e a veia pega no braço direito com uma agulha se movendo tornavam quase inexequível o único “ato” que dependia exclusivamente do destro Gabriel.

Associado a isso, o constrangimento de saber que pelo menos 9 pessoas estavam do lado de fora do banheiro aguardando “ansiosos” o resultado do conclave.

Tudo ia razoavelmente bem, até que a Dona Maria Carolina Massote, também conhecida como minha mãe, começa a conversar dentro do quarto. Meus amados amigos, vocês não tem noção do que é TER que fazer o que estava fazendo ouvindo a terna voz da SUA MÃE!! hahaha. Tive que interromper a tentativa, abrir a porta do banheiro e pedir gentilmente à minha querida genitora de que não se pronunciasse até o final do “procedimento”.

Lembram da mãe do nadador Thiago? Em suas provas, ela ficou famosa com seu “Vai Thiago!, Vai Thiago!” vindo das arquibancadas. Desculpe mãe, mas para meu procedimento essa não era uma opção legal. Só faltava estar sob a trilha sonora de “A pipa do vovô não sobe mais”. hahaha

O fato é que num ato heroico (e aqui sem nenhuma falsa modéstia), consegui cumprir a missão. Habemus Papai…

Falo papai, pois apesar de ainda não ter filhos, todo ano tenho que pagar a anuidade “dos minino” pela taxa de congelamento. Ou seja, nem vieram e já estão dando despesas, imagina quando nascerem!! No livro que ainda pretendo escrever quero contar essa e outras histórias com mais detalhes.

Bom, de um tempo pra cá já iniciamos o procedimento de fertilização in vitro (FIV), que é mais efetivo que o da simples inseminação. Fizemos uma primeira tentativa, mas Deus entendeu que ainda não era a hora. A taxa de sucesso para o processo de fertilização gira em torno de 40% por tentativa, e depende de fatores como idade da genitora e qualidade do material. Para nós, bastaria aquele 1%, não o vagabundo do sucesso sertanejo, mas aquele 1% que vem Daquele que tem Poder sobre todas as coisas, também conhecido como milagre de Deus, que já experimentamos em nossas vidas algumas vezes.

Mas a mensagem que quero deixar não é da sorte e condição que tive de conseguir congelar o sêmen antes do início das quimioterapias e radioterapias. Mas sim a de que se você se tornou estéril de forma definitiva, e assim como eu deseja muito ter um filho, essa condição não deve te desestimular.

No meu caso, por exemplo, eu e minha linda esposa já decidimos que independentemente se vamos conseguir sucesso na fertilização, iremos adotar uma criança e dar a ela – até porque não poderia ser diferente – o mesmo amor que nutrimos um pelo outro e que daremos aos filhos biológicos, caso venham. Minha esposa diz que quando o amor não cabe mais dentro da gente e está em vias de transbordar, devemos dividir com a chegada de um filho.

Tenho uma convicção: de que se a esterilidade for o preço a ser pago pela cura, entendo que esse é um preço módico, pois existem outras formas muito bacanas de se ter um filho no futuro, biológicos ou não.

A torcida na verdade é que os tratamentos evoluam e ganhem novas alternativas que tragam menor toxicidade e que reduzam a possibilidade de que os seus efeitos levem à esterilidade. Afinal, estamos dispostos a pagar um preço pela cura, mas sabemos que para muitas pessoas esse preço – o da esterilidade – pode ser muito alto.

A receita então é sempre procurar congelar sêmen para o caso dos homens que estão ingressando para um tratamento contra o câncer, e os óvulos para as mulheres. E se isso não for possível, seja qual for o motivo, e se for confirmada a esterilidade, a adoção vem com uma alternativa muito legal para essas famílias que querem dividir, para depois multiplicar o amor que nutrem uns pelos outros.

Até lá, foco total no tratamento e na luta contra o único vilão dessa história, o câncer. E se da luta resultar esterilidade, vamos partir para a “turma do ÃO”: inseminação, fertilização e adoção.

Um abraço a todos e até a próxima #salvemaisum #institutooncoguia #transplantando
Gabriel Massote

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5 comentários sobre “O Câncer e a Infertilidade

  1. Mais uma vez amigo, parabéns por sua determinação e trabalho tão lindo de divulgação e esclarecimento às pessoas. Muito sensível o incentivo à adoção. Acho perfeito. O amor é o mais importante. Você e sua esposa terão seus filhos, não importa de onde eles venham. Deus é quem sabe. Um grande abraço.a

  2. Mais uma vez amigo, parabéns por sua determinação e trabalho tão lindo de divulgação e esclarecimento às pessoas. Muito sensível o incentivo à adoção. Acho perfeito. O amor é o mais importante. Você e sua esposa terão seus filhos, não importa de onde eles venham. Deus é quem sabe. Um grande abraço.

  3. Gabriel, como o admiro! Que seus filhos cheguem sob as bençãos de Deus! Texto esclarecedor. Me emociono com seus depoimentos! Que Jesus o abençoe sempre!

  4. Oi Gabriel,
    Adoro seus textos e sua luta, ou melhor, suas conquistas. Sempre com muito bom humor, entusiasmo e determinação vc esclarece e aborda temas de muito impacto. Parabéns pelo seu trabalho! O seu coração já abriga muitos filhos e tantos outros hão de chegar. Grande abraço!

  5. Oi Gabriel, amei sua história, eu e meu esposo passamos pelo mesmo caso, ele ficou estéril..
    Porém não pensamos em ter filhos agora, mas quando chegar a hora, vamoa adotar uma criança . Parabéns pelo seu bom humor, so quem passou pelo oque passou sabe cm é difíci le ver a vitória diante disso não tem preço. Deus abençoe vc e sua família !!

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